bebemoragem
ressonância, um empréstimo à eça e victor hugo (saindo de um ensaio de antonio candido sobre o recurso da citação): eça, o lusíada, "era a hora calada em que os lobos dos montes vão beber", que toma emprestado a hugo, que diz: "c'était l'heure tranquille où les lions vont boire". ao que eu (visando/projetando poema futuro) tresleio da seguinte maneira: "naquela parada em que os bebuns da quebrada vão beber".

meus amigos ilhéus: aldy, fifo e fábio
Escrito por ronald augusto às 17h50
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canção pra boi dormir
Uma definição de Dante (sim, o remoto poeta italiano) a propósito da canção (canzone), diz assim: “...é uma composição de palavras postas em música” (o grifo é meu). Com efeito, a letra de música que, para dizer o mínimo, não é bem poesia, requer a sua “fenomenologia da composição”. A simplicidade da definição do poeta florentino me autoriza a dizer outra coisa óbvia: a letra de música nasce para ser cantada e não lida ou declamada, do contrário seria um poema embalsamado nas páginas de um livro. Isto é, as questões de composição próprias a um texto que é “palavra voando” (na feliz formulação de James Joyce), exigem do letrista um comportamento perante a linguagem diferente daquele experimentado pelo poeta.
A canção é uma obra onde se integram de maneira inextrincável informações musicais e verbais. O compósito canção não é, portanto, um subdiretório daquela já consagrada poesia do suporte livro/papel, palavra para ser, mais do que lida, murmurada na solidão. Apesar de a canção conviver muito bem com a arte da poesia, não resta dúvida de que o canto-falado da música goza de uma especificidade em termos de linguagem. Neste sentido, a canção não tem, rigorosamente, nada a ver com um poema; da mesma maneira que, por exemplo, uma obra fílmica guarda muitas diferenças em relação a um espetáculo de teatro, embora se possa observar, quem sabe, uma certa consangüinidade entre ambos. Na canção verifica-se uma oscilação permanente entre fala e canto. A expressão oral, os sotaques “cantados” (na fala do outro ouvimos com mais facilidade tal música), o pregão do ambulante, etc. são, por assim dizer, formas brutas da canção prístina. Uma sílaba mais longa, aquela pausa inesperada na elocução, uma seqüência de inflexões quase onomatopaicas, enfim, tudo isso está na raiz dessa fala que se transforma em canto. Não se pode “declamar” ou apenas dizer a letra da canção. Fazendo isso negamos a música que, ao fim e ao cabo, impõe os limites ao ajustamento das palavras, de acordo com aquele sentido requerido pela canzone dantesca. É como se tentássemos descrever um balão sem mencionarmos sua pele de látex.
Escrito por ronald augusto às 00h34
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